A vontade de Deus nem sempre não coincide com a nossa. E aí está o primeiro
passo para amar a Jesus: abdicar do que nós queremos, para fazer o que Ele
quer. É o que São Paulo chamava de “a obediência da fé” (Rm 1,5), sem o quê é
“impossível agradar a Deus” (Hb 11,6), já que o “justo vive pela fé” (Hab 2,4;
Rm 1,17).
O profeta Isaías disse:
“Meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o
Senhor, mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha
conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos” (Is 55, 8-9).
A lógica de Deus é diferente da nossa porque Ele vê todas as coisas,
perfeitamente, enquanto a nossa visão é míope e limitada. É como se olhássemos
a vida como um belo tapete persa, só que pelo lado do avesso.
Não podemos duvidar de que a vontade de Deus para nós “seja a melhor possível”,
mesmo que seja incompreensível no momento.
O que mais agrada a Deus é trocarmos, consciente e livremente, a nossa vontade
pela d’Ele, porque Isto é prova de muita fé, concreta. Quando damos esse passo,
Ele substitui a nossa miséria pelo seu poder. Portanto, é preciso a cada dia, a
cada passo, em cada acontecimento da vida, fazer esse exercício contínuo de
aceitar a vontade do Senhor, que sabe o que faz.
São Bernardo, doutor da Igreja (†1153) disse: “Se os homens fizessem guerra à
vontade própria, ninguém se condenaria”. Este é o segredo para se
abandonar aos desígnios de Deus: ele é Pai, ele nos ama, ele quer só o nosso
bem, por mais adversas e incompreensíveis que sejam a situação que vivemos. Ele
está no leme do barco da nossa vida. É preciso confiar!
Deus é o maquinista do trem da nossa vida, por isso não precisamos nos
preocupar com a nossa sorte. O salmista diz: “Confia ao Senhor a tua sorte,
espera Nele: Ele agirá” (Sl 36,5).
“Mas eu Senhor, em vós confio… meu destino está em vossas mãos” (Sl 30,15-16)
Santo Afonso de Ligório (†1787), doutor da Igreja, resumia tudo dizendo: “Fazer
o que Deus quer, e querer o que Deus faz”.
São Paulo insistia nisso; dar graças a Deus em tudo é o que alegra ao Senhor,
pois é o melhor testemunho de fé que lhe damos. Esta atitude consciente elimina
a tristeza da nossa vida, arranca de nós o mau humor, a impaciência, a
grosseria com os outros e a perigosa lamentação.
É nessa perspectiva que S. Paulo dizia: “Ficai sempre alegres, orai sem cessar.
Por tudo dar graças” (1Tes 5,16).
Não seremos felizes de verdade e não teremos paz duradoura, sustentada,
enquanto não nos rendermos à santa e perfeita vontade de Deus.
“Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito: alegrai-vos!… O Senhor está
próximo! Não vos inquieteis com nada; mas apresentai a Deus todas as vossas
necessidades pela oração e pela súplica, em ação de graças. Então a paz de
Deus, que excede toda a compreensão, guardará os vossos corações e pensamentos
em Cristo Jesus” (Fil. 4, 4-7).
O santo vive na paz e na perene alegria, embora caminhando sobre brasas muitas
vezes. São João Bosco dizia que “um santo triste é um triste santo”, e o seu
discípulo, S. Domingos Sávio, dizia que a santidade consiste em “cumprir bem o
próprio dever e ser alegre”.
São Paulo perguntava: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). E o
Apóstolo explicava a razão dessa esperança: “Aquele que não poupou o seu
próprio Filho (…) como não nos dará com Ele todas as coisas“? (8,32).
É nessa mesma fé e esperança que o santo vive; a cada instante repetindo para
si mesmo aquela palavra do Senhor: “Não vos preocupeis por vossa vida… Não vos
aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos?… São os pagãos que se
preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de
tudo isso” (Mt 6,25-32).
Jesus ensina o que é essencial: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a
sua Justiça” (6,33), isto é, fazer a vontade de Deus.
Também conosco será assim; é nos momentos mais difíceis da vida, nas crises de
toda espécie, que temos a oportunidade de fazer a vontade de Deus da melhor
maneira; especialmente quando Deus nos pede beber o cálice da amargura. O que
fazer? Correr, fugir?
A vontade do Pai deve ser perfeitamente realizada na terra como é no céu.
Quando isto acontecer, então o Reino dos céus acontecerá na terra plenamente.
Na última Ceia Jesus disse a seus apóstolos: “Se me amais, guardareis os meus
mandamentos” (Jo 14,15). Quem não luta para guardar os Mandamentos de Deus, não
ama a Deus. É por amor a Jesus que devemos amar os Mandamentos e não pecar.
Eles são o caminho da conduta moral que nos leva à perfeição querida por Deus.
Infelizmente, em nossos dias, os homens querem fazer a própria moral e não mais
viver a moral que Deus nos deu. É o que nos tem dito o Papa Bento XVI, “a
ditadura do relativismo”: cada um faz a moral e a doutrina que quer; como se
Deus não existisse e não tivesse revelado suas leis; e quem não aceita esta
“nova mentalidade”, é, então, taxado de retrógrado, obscurantista e atrasado. É
uma verdadeira ditadura do homem contra Deus. É como se a verdade não existisse
e o bem fosse igual ao mal.